A Clínica sob o Signo do Tempo

Atualizado: 9 de mar.

Neste momento, você está numa sala confortável; um ambiente não angelical, pois deveras existencial. Chama atenção aquela poltrona que reclina para que as pernas descansem e, logo acima do seu ombro, aquele canto para o qual as vistas se voltam – um pequeno jardim de jasmim, rosas, orquídeas, margaridas e gramas esverdeadas que amaciam os pés, onde os pássaros cantam e o silêncio voa. Um cenário sem muitos móveis, poucas cores, aquelas mais discretas que convidam à introversão da própria vida. Sem qualquer apelo excessivo à estética que o distraia para fora de si-mesmo, tal como os eletrônicos, as cristaleiras e os aromas de uma cozinha estranha. Neste instante de repouso, as lembranças nevoam, tal como os sonhos vêm e vão para dentro dos cílios cerrados, olhos fechados. Tudo se passa num átimo de segundo e as cenas da sua vida têm uma espécie de duração eterna dentro de você, aquilo que permanece intocado, sensível ao alarme: “não toque aí!”. As nuances da memória que surgem sombreiam o espaço vazio das ausências, reverberando as mortes que trazemos em nosso corpo, essas marcadas pelo signo do tempo. Então, minhas condolências: “Você morreu ontem”; uma espécie de voz que parece explodir dentro da pele, como se as lembranças da vida fossem aquelas bolhas de sabão que as crianças assopram e brincam cuja beleza, brilho e forma se contentam às vistas, porém são inapreensíveis à rudez do toque, da posse, do tempo; admiráveis instantes irreproduzíveis que vêm e vão, lembranças bolhas de sabão.

Então você está numa sala que vai te colocando aos pouquinhos mais próximo de algo que (em você) foi perdido, subtraído e agora buscado, cônscio de que a vivência do luto convoca uma espécie de verticalização da subjetividade diante do tempo, tal como quem ergue sua espada como se pudesse furar o céu.

Neste espaço de introversão no qual vamos quebrando os próprios espelhos e os falsos reflexos, como se coubesse (ali) a tarefa de comemorar a vida. Meu Deus! Que lapso freudiano acabo de fazer. Minha cabeça queria escrever “rememorar a vida”, mas meus dedos escreveram “comemorar a vida”. Com quem estará a verdade? Com a cabeça ou com os dedos? O futuro dirá ou ainda aqueles momentos chamados de passado, pois se lhe coubesse a tarefa de escolher apenas os momentos mais marcantes, as memórias mais felizes, para remontar a própria vida, quais momentos seriam esses? A felicidade da infância, os romances da adolescência, a descoberta do amor, o que transformaria a rememoração em comemoração?

Talvez seja justamente partindo das nossas próprias mortes que possamos redescobrir os mistérios do que nos eterniza, do que nos faz durar e permanecer, pois que: Pugno, ergo sum – luto, logo existo. Parafraseio aqui Rubem Alves: “É preciso que haja sempre uma batalha a ser travada. A paz desejada (o sonho do sítio do vovô…) logo se transforma num charco d´água parada. A segurança é a mãe do tédio. E, no tédio, as serpentes chocam seus ovos”. E nos dizeres de Thomas Eliot: “Homens velhos devem ser exploradores, não importa onde… Temos de estar sempre nos movendo na direção de uma nova intensidade, de uma união mais alta, de uma comunhão mais profunda… Nos movendo através de uma desolação escura, fria e vazia; o grito das ondas, o grito do vento, as águas imensas das gaivotas e dos golfinhos; no meu fim está o meu início”. Nesta sala de ares barrocos, velas e castiçais, própria de uma introspecção colonial, aberta com aquela chave preta que toma o tamanho da palma da mão, pois assim metaforizo o acesso a esse mundo tão seu e adequadamente fechado, protegido, à espera da emoção certa capaz de abri-lo. Pois bem, voltando à sala, não são as interrogações sobre o “depois da vida” que assaltam o sentido de estar ali à espera, com olhos voltados àquele canto do jardim, onde os pássaros cantam, o silêncio pousa e nada a respeito do além do mundo poderá ser descoberto, senão algo sobre o além de si-mesmo.

Neste espaço, você está sendo preparado para uma luta cada vez mais aperfeiçoada com aquilo que só você poderá levar para a eternidade: a forma como decidiu existir e fazer da sua vida a criação de si-mesmo. Neste trabalho em que a mariposa vai ganhando asas e se tornando borboleta, uma identidade metamórfica em constante movimento para além de si-mesmo, tudo o que foi vivido foi necessário para que agora você esteja nesta sala, procurando-se; eu diria, novamente, pois essa busca não termina e já começou algum tempo. Então é compreensível o cansaço. Mas diria o poeta Kahil Gibran: “só quem perdeu o caminho de casa sabe a alegria de reencontrá-lo”, como se, subitamente, pudéssemos ressurgir para o encanto do mundo (de novo!).

Ah! Isso nos leva aquela grande questão que surge como uma abelha ao pé do ouvido: sob o signo do tempo, como não perder o desejo de viver; de encontrar a beleza rendida do fim da tarde, no meio da semana atribulada, no charme de um sábado a noite, na mansidão de um domingo de manhã, na introspecção de um fim de tarde dominical?

Nietzsche sabia bem que a última metamorfose do espírito, a mais dolorosa, é a criança, aquela que renasce no movimento do “Sim para a Vida”, como quem passa a vê-la após a morte. Nesta sala convidativa, a transformação é sempre um salto do agora para o que se busca alcançar (reencontrar). Então que o poder da epifania é um elemento central na arte do encontro terapêutico, o que designamos como um “acontecimento clínico”, algo que, realmente, surge em camadas de sobreposição gradual da vida psíquica rumo a sua própria originalidade.

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