A Função Terapêutica da Espiritualidade

Atualizado: 9 de mar.

Uma das matrizes do pensamento, que estrutura e condiciona a apreensão dos objetos, estímulos internos e externos, pela sensação e pela percepção, sugere que aquilo que vemos, os fenômenos, não é exatamente a realidade última.

Sejam as ideias de Platão, o númeno de Kant, os arquétipos de Jung ou os elementos beta de Bion, todos aludem a essa dimensão transcendente. Ou seja, a realidade última ultrapassa todas as formas de representação do real, teorias, conceitos, poesias e canções, por mais elaboradas que possam que ser.

Na pior das hipóteses, aquilo que vemos ou deduzimos a partir do que visualizamos é uma mera ilusão dos sentidos ou uma projeção do desejo e da fantasia que nos faz ver aquilo que consciente ou inconscientemente queremos ver.

Na melhor das hipóteses, aquilo que vemos é um reflexo, uma sombra, uma imagem ou representação limitada e imperfeita da essência do real, da verdade em si, a qual podemos vislumbrá-la, mas não abarcá-la em sua totalidade.

Aliás, quanto mais avançamos no conhecimento, mais consciência nós temos da imensidão de coisas que desconhecemos e da relatividade daquilo que sabemos. Tomamos consciência de que toda teoria e todo modelo de compreensão são inacabados, precisam ser atualizados e nesse processo podem até ser descartados, conforme os instrumentos de conhecimento são aperfeiçoados e acessamos outras fontes documentais.

Mesmo aqueles mais certos de suas crenças, excetuando provavelmente os psicóticos, no íntimo carregam algum nível de dúvida e de inquietação frente ao desconhecido, ao essencialmente ou aparentemente misterioso. Desconhecido que pode um ser transcendente, um ente metafísico, um dado da realidade que não se encaixa num modelo teórico, num esquema ideológico. Pode ser um sentimento que não se consegue pensar e traduzir para si ou para o outro ou um pensamento que não se consegue sentir, se conectar com a fonte da qual emergiu.

Há quem conviva bem com isso, uma vez que as certezas que têm são maiores e mais fortes em seu ser, não perturbando sua confiança na vida.

Há quem procure reprimir a dúvida ou desviar o foco dela. Entretanto, mesmo que “bem sucedido”, ela não deixará de atuar e de perturbar a consciência sob a máscara de um sintoma, numa transferência de energia de uma pulsão para outra pulsão, substituindo um sintoma por outro, ou inflacionando energeticamente outro pensar ou outro agir, os fazendo adoecer pelo excesso de investimento numa tentativa frustrada de compensação. Como diz Jung:

“Quando a reação é reprimida, ela perde sua influência reguladora. Começa, então, a ter efeito acelerador e intensificador no sentido do processo consciente. É como se a reação consciente perdesse sua influência reguladora e como consequência, toda a sua energia, pois se cria uma situação na qual não somente não há uma reação inibidora, mas sua energia parece acrescentar-se à energia da direção consciente. Inicialmente, isto ajuda a levar a efeito as intenções conscientes, mas, como estas não são controladas, podem impor-se demasiadamente, à custa do todo. Se uma pessoa, por ex., faz uma afirmação um tanto ousada e reprime a reação, isto é, uma dúvida oportuna, ela insistirá tanto mais sobre sua própria afirmação, em detrimento de si própria.”

Na perspectiva junguiana, o sintoma é basicamente produto do unilateralismo da consciência que não desenvolveu suficientemente suas outras funções, auxiliar, terciária e inferior – em relação à sua função superior -, ou não está se servindo delas de modo adaptativo. E, portanto, o inconsciente tem atuado nela não como fator complementar e compensatório, e sim como contraposição enviesada e perturbadora.

Quanto mais alienada a consciência estiver do inconsciente, quanto mais o ego – o centro da consciência e da vontade – estiver distante do self, isto é, do si-mesmo – o centro da totalidade do ser -, mais o campo perceptivo ficará estreito e enviesado. Seja para acessar a verdade ‘de dentro’ e expressá-la de modo higiênico e criativo, seja para enxergar a verdade ‘de fora’ e ir além da superfície, da epiderme, e se deslocar para outros ângulos obtendo uma compreensão mais abrangente do fenômeno.

Para Jung, a superação do conflito passa pela função transcendente, a potência psíquica que reconecta a consciência ao inconsciente, o ego ao self, para reequilibra-los dinamicamente fazendo com que um atue em colaboração com o outro, como aliados não como adversários, e haja uma profícua adaptação interna e externa da libido, a energia psíquica vital. Obviamente, a adaptação não é um estado que se chega e se cristaliza como se a partir daí fosse possível ligar o “piloto automático”. A vida é dinâmica, mutante, transcorre sob os signos da impermanência, da contradição e do imponderável exigindo atualizações e novos processos adaptativos.

Por isso, uma boa psicoterapia não é dirigida apenas para a superação dos problemas presentes ou ao menos para proporcionar alívios momentâneos. É dirigida outrossim num processo colaborativo entre terapeuta e paciente, para o fortalecimento da consciência com vistas a capacitá-la para encarar novos problemas, novas situações que vão exigir o remanejamento ou a obtenção de novos recursos adaptativos.

Essa tarefa, porém, não é privativa da psicologia ou da psicanálise. Tampouco foi inaugurada por elas ou por qualquer outra ciência.

As religiões de modo geral, segundo Jung, são sistemas psicoterapêuticos que fornecem meios que possibilitam a integração da consciência com o inconsciente, a atualização das potencialidades anímicas e a harmonia interior. Ou, pelo menos, proporcionam a catarse, a descarga das tensões acumuladas, o extravasamento de necessidades psíquicas. Senão a cura das feridas da alma e suas somatizações, pelo menos o alívio das dores e dos sofrimentos.

A eficácia de cada sistema religioso é semelhante à cada teoria psicológica. Depende da conexão entre o pressuposto psicológico da religião, suas crenças e seus ritos, e o pressuposto e a disposição psicológica da pessoa no momento.

A diversidade e a maleabilidade da psicologia humana e o seu dinamismo explicam tanto a aderência a uma determinada abordagem teórica ou teológica em detrimento de outras, quanto a mudança para uma outra abordagem teórica ou teológica, quando a anterior esgota ou aparenta esgotar suas funcionalidades pra pessoa.

Sejam teorias sobre a mente e as concepções filosóficas ou ideias religiosas, elas não são simples ou sofisticadas abstrações puramente racionais, operações cognitivas meramente intelectivas. Elas têm em comum um pano de fundo psicológico tecido por elementos cognitivos e emocionais comuns à espécie humana – por isso os paralelos e os pontos de identificação entre as ideias que transcendem o tempo – que, em interação com a apropriação cognitiva-afetiva que o autor faz do seu tempo e da sua história, condicionam a elaboração final.

Certo é para Jung que a religiosidade ou espiritualidade é uma função da alma humana, isto é, da totalidade psíquica, assim como a sexualidade. Cada uma tem sua energia específica que emana da mesma fonte, o inconsciente coletivo.

De igual modo à sexualidade, a espiritualidade pode ser atrofiada, deslocada ou sublimada para outra finalidade, mas não pode ser apagada. Sua energia não se esvai por falta de uso, ela se transmuta. Pode se expressar em congruência com a totalidade do ser, de maneira saudável ou de modo incongruente, como sintoma, de forma adoecida.

Espiritualidade e sexualidade quando bem vividas e em harmonia permitem a pessoa viver sem se assombrar e se perturbar com a incompletude, com o desconhecido, com os pontos cegos da vida. Potencializam o gosto pelo conhecer, pelo desvendar e pelo criar.

Por fim, como pontua Jung, o sentimento religioso não é provocado somente pelas ideias formalmente religiosas, de caráter sobrenaturalista ou metafísico. Pode ser ativado e canalizado a serviço de uma filosofia, de uma ideologia política e, inclusive, da ciência, que passam a funcionar como substituas para a fé religiosa.

Alguém pode, de boa fé, convencer-se de que não tem ideias religiosas. Mas ninguém pode se colocar à margem da humanidade, de forma a não ter nenhuma representation collective dominante. O seu materialismo, ateísmo, comunismo, socialismo, liberalismo, intelectualismo, existencialismo etc. testemunham contra a sua inocência. De alguma forma, em alguma parte, aberta ou dissimuladamente, ele é possuído por uma ideia supraordenada.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. JUNG, CARL. A dinâmica do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1984, p.80.

  2. JUNG, CARL. Fundamentos da psicologia analítica. 13 ed. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 150.

  3. JUNG, CARL. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2006, p.74.

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