Estresse e Síndrome de Burnout

Atualizado: 9 de mar.

Estresse e Síndrome de Burnout


O trabalho, pago ou voluntário, é uma parte muito importante na vida das pessoas. Não é à toa que nossa sociedade é considerada a Sociedade do Trabalho.


A atividade laboral nos dá reconhecimento, amigos e orgulho das nossas realizações. Serve até mesmo como âncora identitária: “sou professor”, “sou comerciante”, “sou enfermeira”, etc. O trabalho é, portanto, fonte de recursos, de sociabilidade e de identidade. Porém, o mundo do trabalho, como um mundo produtivo em uma sociedade de consumo, é ordenado por metas, projetos com prazos (muitas vezes bem curtos) e, em geral, bastante cobrança. Esta cobrança, tanto interna (do próprio trabalhador sobre si mesmo), quanto externa (do chefe, do cliente…), nos coloca em condições que exigem respostas e atitudes que geram estresse.


O estresse é um fator orgânico ao trabalho, ou seja, faz parte dele de maneira indissociável. Porém, o adoecimento por estresse, ou mesmo o esgotamento emocional por estresse no trabalho, chamado de Síndrome de Burnout, não é algo determinado obrigatoriamente a acontecer. Portanto, conhecer o estresse e seus efeitos de maneira continuada, podem justamente ajudar a prevenir o agravamento do quadro e mais: fornecer elementos que ajudem na alteração do ambiente de trabalho de forma que ele não seja um problema à saúde mental dos trabalhadores. Iniciaremos pelo estresse.


O Estresse

De maneira simplificada, o estresse pode ser compreendido como uma resposta do organismo frente a algum estímulo ou alguma alteração no ambiente que faça com que a pessoa necessite se adaptar.


O estresse envolve a percepção psicológica de uma novidade e a consequente ativação do organismo numa condição que costumamos chamar de “mecanismo de luta e fuga”. Essa condição era inicialmente chamada de “síndrome geral de adaptação”, pois remete a uma necessidade de se adaptar. Por isso, podemos ver este mecanismo em momentos bons da vida: se você ganhar um carro novo, o que é uma ótima novidade, você ficará em Estado de Alerta, que é a primeira fase do estresse: coração acelerado, respiração ofegante, boca seca, mãos frias, nó no estômago, aumento de suor… você terá um belo aumento do hormônio adrenalina. A adrenalina é um hormônio produzido pelo corpo que está relacionado com situações de estresse e excitação.

Ficar estressado, inicialmente, com um aumento de adrenalina que te deixe em alerta, não é algo necessariamente ruim: afinal, no exemplo do carro, ele é novo, tem funções diferentes, é algo muito bom, porém também é perigoso (você pode bater…). A adrenalina dá a sensação de energia, tira o sono e aumenta a capacidade de focar. Um pouco de estresse é bom (se você estiver muito relaxado e sem medo, pode acabar mexendo no celular enquanto dirige e ter um acidente), e esse estresse bom, que administra o medo, te deixa pronto para reagir, se for necessário.


Temos até um nome diferente para este estresse bom: Eustresse.


O estresse bom, por sua vez, aparece e vai embora em diversos momentos, e isso é normal, isso é estar saudável. Constitui, inclusive, um mecanismo evolutivo: os organismos que “ligavam” o estresse sobreviviam mais, pois subiam na árvore e perdiam o sono até o perigo ir embora. Ter medo pode ser evolutivo, pois te ajuda a sobreviver. Porém, muitas vezes o estresse não é tão passageiro (para ser bom, não deve passar de 24h) ou então não é tão funcional, podendo fazer a pessoa que ativou seus mecanismos de luta e fuga ter uma descarga tão grande de adrenalina que simplesmente venha a desmaiar! O estresse pode ser bom, porém, se durar muito, ou se for tão alto que deixe a pessoa sem conseguir responder, então ele passa a ser ruim, passa a ser disfuncional. Esse estresse disfuncional, que atrapalha, também têm um nome para si: distresse.


Nessa primeira fase, quando entramos em contato com o estresse e temos estes sintomas descritos, até cabe termos estratégias de controle de sintomas: controle de respiração, mudar o padrão da respiração, de superficial e entrecortada (aquela bem rápida e curtinha) para um padrão onde fazemos respiração profunda, bem devagar, esperando alguns segundos entre uma respiração e outra. Puxar o ar contando até cinco, soltar devagar, repetindo algumas vezes, pode ajudar bastante para voltarmos a termos o controle do nosso próprio corpo e seguirmos dirigindo, operando uma máquina ou mesmo conseguirmos seguir atendendo um cliente difícil. Perceba que os sintomas apresentados até aqui são praticamente os mesmos sintomas da ansiedade: coração acelerado, respiração ofegante, boca seca, mãos frias, nó no estômago, aumento de suor. Ou seja, no início, o estresse parece e se comporta tal como a ansiedade e as estratégias de controle de ansiedade também ajudam aqui.


Porém, apesar de serem funcionais as estratégias desta primeira fase do estresse, a fase de alerta, que dura até 24 horas, em geral não é bem a fase em que encontramos os trabalhadores de ambientes estressantes de trabalho. A segunda fase do estresse, a fase de estresse contínuo, ou estresse crônico, é a que costuma ser mais frequente em ambientes cuja cobrança em demasia se faz presente.


Quando vamos além de vinte e quatro horas e passamos semanas estressados, “ligados” em algum problema e sentindo que, a qualquer momento, podemos precisar agir, entramos na segunda fase do estresse. Diferentemente da fase de alerta, cheia de energia e que anda de mãos dadas com a ansiedade, esta fase de estresse crônico passa a ter mais sintomas e estes passam a variar mais de pessoa para pessoa. Podemos ter um ou vários sintomas, como esquecimentos, problemas com a memória, problemas dermatológicos, aumento da pressão arterial, mudança de apetite (uns comem sem parar enquanto outros não conseguem relaxar e comer), sensação de mal estar, cansaço constante, muita sensibilidade emotiva, pensamento repetitivo sobre um mesmo assunto, dúvidas quanto a si próprio, irritação excessiva… Algumas pessoas podem ter poucos sintomas, mas com gravidade. Outras, podem ter vários, com incidência moderada.


Inicialmente, o estresse é um propulsor do desempenho, aumenta o desempenho e nos remete à ansiedade. Porém, com o passar do tempo, o estresse passa a derrubar o desempenho e ter uma condição que lembra mais a depressão.


Se, após meses a pessoa continuar estressada, seja por algo que perdura há meses ou porque ela tem seguidas situações de estresse, sem conseguir descansar e dormir uma noite de sono sem preocupação alguma, temos o risco de vermos esta pessoa entrar na terceira fase do estresse, a fase de esgotamento. Ficar três meses ou mais em forte estresse, com o progressivo acúmulo de sintomas, nos leva a esta condição. Aqui, vemos um agravamento dos sintomas da fase anterior: agora é comum encontrarmos queixas de insônia, úlcera, dificuldades sexuais, tiques nervosos, mudança extrema de apetite, sensação de cansaço e de impossibilidade de trabalhar, vontade de largar tudo, pensamentos repetidos sobre um mesmo assunto, irritabilidade, dificuldade para conseguir se divertir, angústia ou uma completa falta de vontade, uma ausência de energia… Estar com muitos destes sintomas, por mais de 3 meses, costuma ser considerado um adoecimento de saúde mental por estresse prolongado.


Muitos são os fatores que podem nos colocar em esgotamento por estresse. Não necessariamente o trabalho, mas questões pessoais da vida. Por exemplo, cuidar de um familiar doente pode nos levar ao esgotamento. Nesse caso, dizemos que a pessoa está em esgotamento por estresse. Porém, quando o motivo que levou a pessoa para esta condição é a vida profissional, então temos um quadro diferente: chamamos de Síndrome de Burnout, a Síndrome de Esgotamento Emocional por Estresse no Trabalho. Esta diferenciação é muito importante, pois quando adoecemos por algo ligado ao trabalho temos uma situação em que não basta medicar simplesmente o trabalhador (por mais que usar medicamentos possa ser indicado, dependendo do caso).


Quando o ambiente de trabalho leva o trabalhador ao esgotamento, não é apenas um “problema do médico ou do psicólogo”, mas um problema da gestão do ambiente de trabalho. Pode ser (na verdade, costuma ser) que muito trabalhadores estejam adoecendo naquele ambiente. Saber quando é algo estritamente pessoal e quando se trata de esgotamento por estresse profissional é determinante para que possamos intervir não só na pessoa, mas no ambiente.


A Síndrome de Burnout


Chegamos então à Síndrome de Burnout. A palavra Burnout remete a uma expressão em inglês que liga burn (queimar) e out (fora), com uma tradução aproximada que remete a “o extinguir de uma chama”.

Podemos pensar que estar em Síndrome de Burnout significar termos “queimado nosso combustível” até esgotar, de forma que não há mais energia para se trabalhar.


Quando chegamos em esgotamento por estresse por motivos pessoais, ficamos estacionados naqueles sintomas que comentamos antes. Porém, quando entramos no esgotamento por estresse por motivos de trabalho e nos enquadramos, portanto, em Síndrome de Burnout, temos ainda mais três dimensões da nossa vida que podem ser impactadas.


Diferente do estresse, que possui fases, o Burnout possui dimensões. Você está em Burnout quando está em esgotamento de estresse profissional e apresenta uma ou mais dessas dimensões:


  1. Dimensão Exaustão Emocional de Burnout: quando o profissional está em exaustão emocional, ele apresenta sintomas muito parecidos com um quadro depressivo: pouca ou nenhuma energia para o dia seguinte de trabalho, fica intolerante, irritável e amargo no ambiente de trabalho e fora dele. A tendência é este profissional ficar distante e evitar contato.

  2. Dimensão Despersonalização de Burnout: esta dimensão, comum em trabalhadores da área da saúde e da segurança pública (como policiais), é caracterizada por um distanciamento emocional exacerbado, frieza e insensibilidade no contato com as pessoas. O profissional vai deixando de perceber os outros como seres humanos: é como se cada cliente/paciente/colega fosse visto como um “problema”.

  3. Dimensão Redução da Realização Pessoal e Profissional de Burnout: nesta dimensão o profissional passa a se sentir extremamente frustrado, como “se estivesse batendo com a cabeça na parede dia após dia”. A sensação de frustração profissional e infelicidade pessoal passa a dominar o trabalhador e tende a fazê-lo achar que precisa mudar completamente de área.

Na dimensão acima vemos que, se o trabalhador tivesse conseguido mudar a situação antes de chegar a este ponto, continuaria a ver o ambiente de trabalho como uma possível fonte de realização profissional. Porém, pessoas que acabam reiteradamente frustradas em um ambiente podem começar a percebê-lo como extremamente aversivo, tendo aversão a ir para tal empresa ou para um hospital ou uma escola. Nessa dimensão é comum vermos pessoas quererem começar uma carreira nova, entrar em um curso universitário completamente diferente da área em que trabalhavam quando chegaram em Burnout. Porém, será isto necessário? Entrar em Síndrome de Burnout por trabalhar em um hospital faz a pessoa achar que nunca será feliz na área da saúde, porém, se ela mudar de hospital ou mesmo mudar de área dentro do hospital, poderá mudar completamente a situação de esgotamento de estresse dela. Terá novos desafios, novos colegas, uma nova oportunidade de ser feliz.


Dessa forma, vemos a grande complicação que entrar em Síndrome de Burnout nos traz: podemos apresentar uma aversão total ao ambiente de trabalho, julgarmos que somos incompetentes na área ou que nunca seremos felizes em tal profissão, independente da empresa. Neste ponto, percebemos que a Síndrome de Burnout pode fazer o trabalhador sentir algo muito parecido com o estresse pós traumático, como por exemplo quando uma pessoa pega uma turbulência muito grande em um voo e depois fica com medo de avião. Trabalhando nesta área, vi médicos com aversão a hospital, professores com pânico de escola… Apesar do trabalhador, quando chega nesse nível de adoecimento, não querer nem falar da experiência anterior, é importante ter em vista que esta aversão pode ser parte do quadro de Burnout.


Reestruturar a relação e o cotidiano de trabalho desta pessoa pode devolver o prazer da atividade ocupacional novamente, ao mesmo tempo em que compreender quais as fontes de estresse no ambiente de trabalho, sejam elas as metas, os estilos de chefia, um assédio moral ou sexual, ou mesmo pagamentos e prazos inadequados, é o que permite a intervenção no ambiente de trabalho e não apenas no trabalhador adoecido. É esta intervenção nas relações, nos sistemas de controle, na restauração da autonomia dos trabalhadores etc. que vai reestruturar um ambiente de trabalho sadio que possibilite o desenvolvimento dos trabalhadores e não o seu adoecimento.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  1. DEJOURS, C. Por um novo conceito de saúde. Ver. Bras. De Saúde Ocupacional, 1986.

  2. SADIR M.A., BIGNOTTO M.M., LIPP M.E.N. Stress e qualidade de vida: influência de algumas variáveis pessoais. Paideia 2010; 20(45):73-81

  3. LIPP M.E.N. Mecanismos neuropsicofisiológicos do stress: teoria e aplicações clínicas. 2ª ed. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2005

  4. RODRIGUES, A. L. ; CAMPOS, E. M. P. . Síndrome de Burnout. In: Julio de Melo Filho. (Org.). Psicossomática Hoje. 2 ed. Porto Alegre: ArtMed, 2010, v. 1, p. 135-152.

#estresse #esgotamentoemocional #trabalho #saúdemental #SíndromedeBurnout

0 visualização0 comentário