Os atravessamentos da pandemia no atendimento aos dependentes químicos

Atualizado: 9 de mar.

Os impactos da pandemia do Covid-19, juntamente com a existência de um profundo abismo social no país, acentuou a crise da saúde pública, escancarando as disparidades, dificuldades e obstáculos enfrentados pelos profissionais que atuam com a saúde mental. As perguntas que ecoaram destes profissionais foram: como acolher a um sentimento que eu não consigo identificar, muito menos elaborar, para criar formas de lidar com a situação? Como cuidar do outro se eu também me sinto necessitado de cuidado diante desse cenário com tantas perdas e incertezas?

O velho ditado “troca-se a roda com o carro andando” exprime muito bem o sentimento geral que atravessou todo este período em quarentena, pois ao mesmo tempo que não sabíamos ao certo do que essa doença realmente se tratava, tínhamos que orientar os nossos pacientes, concomitantemente, enquanto tentávamos entender quais eram os meios de cuidados que nós, profissionais, tínhamos que fazer e colocar em prática.

Os equipamentos de saúde pública vêm de uma crise de longa data, que se acentuou nesse contexto de pandemia. Os centros de saúde mental pública especializados em tratamento de dependentes químicos funcionam com equipes multidisciplinares e adotam rotinas de frequentes avaliações destas equipes, realizando atendimentos individuais, familiares e em grupo, bem como há matriciamentos/formações em reuniões quinzenais ou mensais, visitas domiciliares quando necessário, e uma equipe que faz o trabalho na rua, sensibilizando pessoas sobre o tratamento, o que aproxima o serviço dos moradores do território. É um trabalho de grande relevância social, um instrumento para superar a exclusão  social, fortalecer e assegurar que todas as pessoas possam desenvolver sua dignidade humana, também por isso tão importante, bonito e gratificante quanto desafiador em vários outros sentidos. Geralmente estes serviços dispõem de salas grandes para realização de atendimentos individuais e/ou grupos e sala de convivência com acesso a livros, revistas e televisão. Eram espaços de livre acesso aos atendidos e que estimulavam a socialização.

No período que antecedeu o início da pandemia, com exceção dos setores de enfermagem e copa, os cuidados com a higiene eram apenas no momento de ofertar alimentos, e se caso a pessoa necessitasse de banho e troca de roupas, era oferecida essa possibilidade com cuidado e respeito. Somente em casos que se avaliava necessário para realizar o atendimento, utilizávamos EPI, como máscaras, luvas e avental.

Um dos braços mais fortes dos atendimentos oferecidos era as atividades em grupo, a qual proporciona além da sensação de pertencimento a cada indivíduo, também um local de reconhecimento dos motivos que o levam ao uso excessivo dessas substâncias, possibilitando a construção de estratégias para reduzir os danos causados e assim fortalecer estes indivíduos a ressignificarem suas histórias e, com isto, auxiliar a mudança de comportamentos que estão ligados aos hábitos de uso/abuso de substâncias.

Em março de 2020, o mundo inteiro se viu em uma pandemia sem precedentes que atingiu a todos, nos colocando em situações diferentes de um dia para o outro, sem ter as condições para uma adequada adaptação que poderia ocorrer com prévia preparação e formação através de ensaios, cursos, estudos, leituras, dentre outras ações. Ao observar essas necessidades que já existiam, mas agora agravadas nesse contexto de pandemia, ampliou o debate sobre os ajustes repentinos à nossa realidade tão adversa.

O acolhimento individual presencial que já oferecíamos diariamente continuou sendo presencial, porém surgiu a necessidade de realizar uma triagem de enfermagem adotando os novos protocolos de segurança (limpeza das mãos com álcool gel, verificação de temperatura e breve histórico do estado físico como sinais e possíveis sintomas). Todos os funcionários passaram a trajar os devidos EPIs, como máscaras, face shield, luvas e avental e a maioria dos atendimentos individuais menos graves, passaram a ser via telefone e/ou chamadas de vídeo online (lembrando que a maioria de nosso público é de baixa renda, o que significa que poucos possuem celulares e um grupo ainda menor possui conexão nestes aparelhos à internet). Com relação aos atendimentos individuais mais graves, estes seguiram presencialmente e os atendimentos em atividades de grupos deixaram de existir.

Em decorrência de tantas mudanças e afastamentos, sejam dos colegas se ausentando do trabalho por pertencerem ao grupo de risco, por atestado médico, a angústia em nosso trabalho crescia tanto entre os usuários como também entre os profissionais. Com atendimentos presenciais reduzidos e poucos contatos telefônicos, recebíamos informações do quanto nossos atendidos desejavam e necessitavam que o tratamento continuasse como anteriormente, pois estava ainda mais difícil seguir com os cuidados nesse novo formato.

Durante o período em que estas adaptações foram adotadas, muitos de nossos atendidos aumentaram o abuso das substâncias psicoativas, relataram conflitos familiares inflamados pelo isolamento e também novos usuários chegaram ao serviço para iniciar o tratamento. Aliás, muitos deles continuaram frequentando bares e biqueiras coletivas, ou seja, agravavam suas condições pelo aumento do consumo das substâncias e pela exposição ao risco de contaminação pelo COVID-19, mesmo com as leis instauradas na faixa vermelha do plano de contingência.

Diante das circunstâncias, os debates realizados pelas equipes multidisciplinares destes equipamentos de saúde pública resultaram no entendimento da importância de ir “de encontro” a essa população e, após muita articulação, saímos às ruas seguindo as normas e novos protocolos de segurança (devidamente protegidos com EPI’s) distribuindo máscaras doadas por diversos serviços, esclarecendo à população a importância de evitar aglomeração, ensinando como usar a máscara e higienizar-se corretamente, bem como a distribuição das cestas básicas que foram doadas nesse mesmo período. Apesar das ações estarem ocorrendo em mutirões pelos serviços de saúde em geral, de forma que estes esforços somassem aos demais na tentativa de contribuir com a manutenção da prevenção do contágio pelo novo coronavírus, os números de contaminados e/ou mortes ainda eram altos.

Ao sairmos às ruas e vermos tantas pessoas aglomeradas, sem máscaras ou usando-as incorretamente, e nosso serviço de saúde “vazio”, sem grupos e atendimentos presenciais reduzidos, foi muito desgastante e angustiante para muitos de nós. Contudo, após a alteração de fase do plano de contingência, tivemos a oportunidade de perceber que os pacientes tinham consciência da gravidade e avaliaram a importância do uso de EPI’s. Pensamos que essa consciência coletiva se fazia presente justamente por conta do trabalho ostensivo de profissionais dos serviços sócio assistenciais de acolhimento.

Ocorreram muitas reuniões e supervisões para pensarmos em estratégias, o que poderíamos fazer para atingir aos mais vulnerabilizados? Foram inúmeras tentativas e erros, novas estratégias, novas tentativas. Como já sabíamos, cada indivíduo traz consigo um universo de possibilidades. Dessa forma, fomos encontrando melhores ajustes. O que dava certo com um, não dava com outro. E seguimos, da melhor forma que podíamos, explorando nossa criatividade.

A reflexão com profissionais de diferentes áreas mobilizou a articulação sobre os diversos cenários e situações ao ponto de transbordar além serviço de saúde pública com a criação do Coletivo Nossa Rede. Nosso grupo percebeu que, mais do que funcionários, éramos também indivíduos vulneráveis frente aos efeitos da pandemia. Dessa forma, entramos em contato com nossas fragilidades e diante delas percebemos que poderíamos resgatar nosso fortalecimento com o mesmo recurso que já utilizávamos como profissionais, o agrupamento.

Assim, decidimos começar de fato nossos encontros, ainda que online, e darmos seguimento ao nosso projeto de grupo de estudos sobre saúde mental. Passamos a nos encontrar online, semanalmente, e em um primeiro momento nos acolhemos, escutando e falando de nossas angústias e desgastes como trabalhadores da saúde mental em um mundo pandêmico e em seguida prosseguimos com o debate e reflexão sobre a construção de um plano de ações que compreende a missão do coletivo que constituímos para trabalharmos a saúde mental.

Sobretudo, após meses nesse ritmo sem trégua, observando e sentindo a exaustão, medo, falta do afeto que passou a ser apenas entre troca de olhares e algumas palavras, nós, do Coletivo Nossa Rede, percebemos que poderíamos, de alguma forma, ajudar outros cuidadores como nós. Em nossos estudos, com base no psicodrama, terapias expressivas e preparação física, elaboramos jogos terapêuticos para encontros online, os quais por meio da ludicidade proporciona bem estar e entrosamento no grupo (ainda que distante fisicamente) em um ambiente acolhedor e participativo, com o intuito de ampliar repertório no que diz respeito a sentimentos/emoções e como lidar com eles. Com isto promovemos a escuta, empatia, pertencimento, melhorando também a qualidade de comunicação no cotidiano.

Diante das experiências nos encontros grupais de forma online com instituições, percebemos que embora todas as limitações e impossibilidades de encontros presenciais, há a potência das intervenções  grupais e da troca de angústias frente à pandemia. Da mesma forma que tivemos que nos adaptar às demandas de cuidado no início desse período, nos adaptamos a plataforma de encontros virtuais e deste novo, conseguimos perceber a potencialidade da coletividade e dessa conexão.

No caos, após todas as angústias passadas no início do ano, nos reinventamos enquanto profissionais, aceitamos novas formas de intervenções, e percebemos que ainda podemos auxiliar outras pessoas tendo a empatia de muitos sentimentos ali relatados. Enquanto trabalhadores da saúde em meio a pandemia, percebemos que intervenções sempre são possíveis quando estamos atentos às reais necessidades dos atendidos e também nos sentimos cuidados uns pelos outros. Esta é a potência da integração do grupo que o Coletivo Nossa Rede está disposto a construir e expandir.

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