Sonhos

Atualizado: 9 de mar.

Sonhos


Desde as épocas mais remotas, os sonhos têm intrigado a humanidade que busca formas de compreender seus significados. Nos livros sagrados de diferentes religiões encontram-se sonhos importantes para a História da humanidade.

Sonhos nas épocas mais remotas


No Velho Testamento, Jacó e seu filho José tiveram experiências oníricas profundas. Após ser vendido como escravo aos egípcios pelos irmãos invejosos da sua relação com o pai, José, após muitos anos no Egito, ascende como conselheiro do Faraó devido a sua habilidade de interpretar sonhos. Tal dom favoreceu a libertação dos judeus ainda sob a condição da escravidão na região.


Já no Corão, livro sagrado do Islamismo, verifica-se que os conteúdos ali expressos por Maomé lhe foram revelados, em grande parte, em conteúdos oníricos. Esses exemplos ilustram como os sonhos sempre exerceram uma espécie de fascínio no ser humano, além da atribuição da manifestação do oculto e, nesta vertente, muitas vezes, ao divino pelas suas imagens e possíveis mensagens.


Na Grécia, todos aqueles considerados enfermos eram colocados no templo dedicado ao deus Esculápio na cidade de Epidauro para que, através do ritual de incubação, sonhassem. Este processo tinha uma intervenção imediata na cura para seus males. Desse modo, o sonho exercia uma função terapêutica.


No século XIX, diferentes filósofos postularam a ideia da existência de uma mente “inconsciente” funcionando paralelamente à consciência. Em 1900, de forma pioneira, Freud publica “A interpretação dos sonhos”, demonstrando serem os sonhos um importante canal de acesso ao inconsciente.


Para o pai da psicanálise, os sonhos realizariam de forma distorcida ou disfarçada um desejo reprimido, que através da interpretação poderiam ser resgatados pela consciência. Ele descreve como um método para o tratamento psíquico das neuroses, dando ênfase ao processo de interpretação das imagens sugeridas pelos sonhos.

Sonhos e Jung


Na primeira década do século XX, Jung, ainda amigo e colaborador de Freud, desenvolve intensa pesquisa através da utilização dos testes de associação, afim de fundamentar empiricamente a teoria freudiana. Chega dessa forma a postular a existência dos complexos, como núcleos energéticos carregados de afetos e significados formados a partir das experiências do indivíduo que agiriam de maneira autônoma influenciando a consciência. Ao romper com Freud em 1912, devido a importantes diferenças teóricas, Jung aprimora uma visão diferenciada sobre os sonhos e suas funções na manutenção do equilíbrio da psique.


Jung entende a psique como um sistema autorregulável, de modo que a consciência e o inconsciente agiriam de forma complementar e compensatória. Descreve assim a psique estruturada a partir de diferentes arquétipos, os quais são entendidos como predisposições inatas herdadas e transmitidas psiquicamente constituintes de um inconsciente histórico, pertencente a toda humanidade. Os arquétipos atuariam como organizadores das experiências, resultando em diferentes complexos, sendo o ego o complexo responsável pela organização da consciência e que emergiria a partir do arquétipo do Self.


Para Jung, a consciência se desenvolveria sempre de maneira unilateral. Isto é, ela se constitui através da dissociação da totalidade em opostos (bem-mal, feio-bonito, masculino-feminino, etc.) vindo a se identificar com um polo deixando o outro inconsciente. A este polo inconsciente Jung chamou de sombra, sendo o confronto com esta um importante estágio do desenvolvimento psicológico chamado por Jung de processo de individuação.

Nesse processo os sonhos, como produtos naturais do inconsciente, desempenhariam uma importante função: compensar a unilateralidade do ego, que poderia corrigir, portanto, sua atuação.


Jung, através de um árduo processo de pesquisa, onde se utiliza da aplicação dos testes de associação, da análise dos sonhos, da observação de fantasias de seus pacientes, sejam eles psicóticos, neuróticos ou não, do estudo atento da mitologia, da história das religiões e da alquimia, vem a postular a existência de um centro inconsciente da personalidade, chamado por ele de Self, responsável pela organização da totalidade da psique e seu desenvolvimento, e que seria a instância produtora dos sonhos. Na teoria junguiana, não podemos dizer “eu tive um sonho”, o mais correto seria afirmar “um sonho me teve”, visto ser este um acontecimento que independe da vontade do ego. Seria uma manifestação da natureza, do inconsciente em nós, do Self, como o centro da personalidade total.


Jung entende que muitas imagens presentes nos sonhos atuam como verdadeiros símbolos, que implicariam alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato. Para ele, um símbolo seria “a melhor representação para algo irrepresentável”. Seria para Jung o produto da atividade criadora do inconsciente coletivo e seus arquétipos. Teria como função unir os opostos consciente-inconsciente. Uma função ao qual chamou de transcendente, a qual aponta sempre para o novo, o futuro, para a superação de um conflito resultado da unilateralidade do ego.


No seu modo de entender os sonhos, Jung irá afirmar que estes não distorcem em nada seu conteúdo, eles são o que são. O que acontece muitas vezes é que o ego se faz incapaz de compreendê-los, pois sua linguagem é outra. Podemos dizer que os sonhos se comunicam através de imagens, e para isto, seu conteúdo é organizado de acordo com padrões arquetípicos.


Enquanto que para Freud, a interpretação do sonho é sempre de ordem causal, isto é, procura-se pelas causas do sonhos, para Jung, uma leitura causal apenas atingiria os complexos. Importava para ele perceber a “causalidade final”, isto é, qual a finalidade daquele sonho ter acontecido. Introduz-se a noção de um “telos” ao sonho e ao sonhar.

Associação e Amplificação do Símbolo


Com relação ao método junguiano de interpretação dos sonhos, ressalta-se dois conceitos importantes. O primeiro é a ideia de associação. Jung acreditava que cada elemento do sonho continha uma individualidade simbólica, a qual seria mais bem interpretada pelo próprio sonhador. Por isso, ele enfatizou a importância das associações que seus pacientes faziam com os símbolos e imagens. Nesse sentido, Jung inovou o método onírico, pois em vez do analista interpretar os sonhos com base em significados preconcebidos das imagens, traduzindo-as ou as decodificando, o paciente era quem realizava as associações com seus conteúdos.


O segundo conceito ressaltado pelo autor é a ideia da amplificação do símbolo. Após reunir as associações do sonhador e realizar várias interpretações ensaísticas a respeito do significado e da intenção de um sonho, Jung passava a examinar os paralelos arquetípicos a fim de entender os níveis mais profundos dos símbolos oníricos. O precursor da psicologia analítica encontrou nos mitos, processos alquímicos, lendas ou contos, motivos semelhantes àqueles contidos em um dado sonho.


Tais imagens oníricas, como tentativas de busca de uma autorregulação psíquica, funcionavam de maneira compensatória, ou seja, compensando estados unilaterais da psique.


A abordagem junguiana vê no trabalho com os sonhos uma possibilidade de elaboração dos símbolos individuais, os quais religariam o indivíduo ao inconsciente, enchendo de significado e profundidade a sua vida pessoal.


Assim, os sonhos não são apenas realizações de desejos ocultos, mas mensagens do Self, o qual busca tentar restabelecer o equilíbrio psicológico e possibilitar a integração de conteúdos inconscientes.


Por isso, diante de um sonho pergunta-se: Para que estou sendo exposto a isso?

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